sexta-feira, 6 de abril de 2007

Sobre o machucar.


      Acho que é a terceira vez que reescrevo isso. Seguindo a sugestão do companheiro de blog, tenho tentado ser mais conciso. Bom, vamos tentar seguir a fórmula pelo extremo.
      Briga. Dor. Tristeza. Desprezo. Isolamento. Vontade de que entendam. Vontade... óbvia de machucar. De esmiuçar feridas. De desenvolver toda possível dor.
      É engraçado uma coisa no comportamento humano... A tendência de que o ser é algo meio espelhado, de que numa dinâmica com duas pessoas, impera a dinâmica e se esvai o individual. Realidades consensuais ( ...essas vis! ) se formam, e entre um conceito e outro, se criam bem-estares e obviamente, melindres. Que diferença faz, jovem menina, se sua mãe olha pra você, quando você chega de noite da rua, e te chama de vagabunda aos gritos? É apenas uma pessoa falando, não...? Por que há tanta energia empenhada nisso, digo, em se proteger desses conceitos ofensivos? Bom... Acho que aí está a resposta: A opinião cria.
      Acho que pior mesmo do que ser xingado, nesse caso, é ser ignorado... Ser nada. Pra um ser que passa a se ver como nada, como é a sensação do enxergar? Do existir...? E mais importante: Do Não-existir...? Acho que é uma sensação avassaladora, que acaba por criar uma dor imensa. Bom, eu já não sou mais uma criança... Eu tenho a noção que longe do corpo social, eu ainda existo, mas e quando é alguém importante? Ou alguém de quem, no fundo, só queria atenção e ser entendido...? Acho que tudo fica mais difícil ainda.
      E não que isso seja necessariamente bonito ou digno de um abraço apertado, minha dor é feita de farpas e delas me torno porco-espinho... E enleado em seus caprichos de expressão, de querer tornar-me real, de ver que minha dor existe, quero abraçar a quem falo se esse não reconhecer minha existência, quero tornar-me real, quero abraçar àqueles a quem eu desejo atingir e me fazer entendido... Quero que entendam minha dor. E que melhor maneira de fazer isso que não obviamente talhando feridas horrendas na carne de pessoas? Oras... Não seria a vingança nada mais do que um instrumento, bem eficiente, por sinal, de comunicação? Não, nunca é pra deixar as coisas quites, é sempre pra deixar bem claro que doeu, e acima de tudo, Como doeu. Nada dessa de piedade...
      Se gosto? Não, acho que não... Toda habilidade de sentir ódio é uma maneira simples de negar o fato, de que uma pessoa não presta e coagí-la ao prestar. Oras, é mais fácil simplesmente aceitar que o outro não é aquilo que se deseja. Mas se fosse tão simples assim... E não, não é. Acaba mesmo que eu queria ferir, queria ferir até que chorassem, até que gritassem, até que sentissem quão ensandecedora pode ser a dor que eu carrego todo dia... E aquele impulso já insano instingando qualquer possível destruição implorava por todo sangue que pudesse ter, e se não pudesse ferir alguém, eu sabia que, aos poucos, se não desse vazão ao meu afã compulsivo de machucar, de criar dor, que aquilo devoraria a mim mesmo, que me devoraria a carne, de dentro pra fora, por noites e dias afins, que ficaria lá, como uma frustração purulenta e cancerígena a eternamente me destruir.
      Não, antes disso, eu faria alguma coisa... E se não pudesse ferí-los, iria ferir a mim mesmo, sob qualquer forma, a sede não se importa de onde bebe desde que molhe à língua e lábios. E assim foi feito. A agonia tremenda passava... Sentia alívio e satisfação imensos, havia machucado alguém.
      Um fato engraçado é que não dói em nada um corte desses, é até mesmo prazeiroso; como disse, um alívio. A impressão que eu tenho é que seria muito mais insalubre manter isso preso, como que a um impulso quase primordial reprimido. É extremamente mais salutar apenas dar vazão a isso do que manter tal agonia remoendo o eu interior de forma incessante. No final das contas, eu só fiz o que precisava pra não enlouquecer. E se nem Meu corpo mais eu posso machucar, oras, que o mundo vá à merda. Fiz isso não para sentir dor. Muito pelo contrário... Senti foi prazer...

Nenhum comentário: