quinta-feira, 5 de abril de 2007

"Why does blood turn brown when it dries...?"

      Talvez eu tenha tido um vislumbre estranho de vida, ontem... Pensei na situação que ocorreu como um momento genuinamente especial, que talvez tenha enriquecido meu dia de uma forma que eu jamais vou conseguir repetir, um momentinho único e singelo que a vida me deu de mão beijada, alguma coisa diferente, um detalhezinho pequeno que realmente soou como algo que fez a diferença.
      É estranho pensar isso; especialmente me considerando... Como assim, alguma coisa desse tipo tá me deixando feliz? Isso normalmente não ocorre... Bom, eu achei que foi um momento de contato com humanos, e foi engraçado... Algumas cenas, visualmente falando, poderiam dar ótimas tomadas de algum filme...
      Bom, aos fatos: Ontem saio de casa extremamente irritadiço e "com o pé na vala", por assim dizer, e nem queria ir pra aula, mesmo. Fui mais pra não levar falta; até de chinelo (sendo que eu ando de moto) eu fui. A sensação do chinelo em si não é tão ruim, porém, hehehehe, especialmente naquela faculdade infernal, tanto humanamente quanto na velocidade das moléculas do lugar... Bom, saio bufando, irritado. Por que Papai Noel não me dá uma BFG9000? "Dê-me uma arma e hei de limpar o mundo...!"
      De qualquer forma... Aula de tradução; eu estava mais que sem saco pra assistir aquilo. Fui praticar digitação no meu notezinho versão celular; digitar nele pode ser desafiante, hehehehhe. Fiquei escrevendo o texto abaixo... Demonstrando como eu me sinto chateado com esse paradoxo:
"É impossível resolver um problema de solidão sozinho". Acho que essa é uma das pedras fundamentais da minha problemática. De qualquer maneira, fiquei a escrever e falar alguma asneira na aula, sobre como o português ou o inglês funcionava.
      Após a aula, é que veio a parte engraçada da coisa... Saio pra terminar de escrever um texto, o que acabo por fazer. Quando encontro uma professora de japonês conhecida. Ficamos falando sobre meu humor menos do que agradável... Achei estranho, imaginava que ela não teria muito interesse no meu humor; talvez ela tivesse com paciência no dia, hehehehe. Li o texto, e de lá começa uma conversa engraçada sobre o mesmo... Sobre o papel da persuação da conversa;
      Ela defendia que era possível exercer vontade diretamente em alguém; digo, alterar a realidade de uma pessoa por meio de argumentos. Eu acredito que a pessoa seja a totalidade da realidade, e que sem pessoa, não pode haver realidade, então a realidade necessariamente só pode ser alterada pela Pessoa em si, ainda que sob a influência de argumentos convincentes. Isso tem um pouco de "ovo e a galinha", e de discussão da sexualidade de metatron, mas eu dou mais valor ao último ponto. Ficamos nisso.
      Estávamos num banco... De repente, chega o namorado dela. Bom, pessoa agradável, eu achava, ainda que com uma dificuldade de compreensão; talvez provinda do fato de que ele tentava ajudar o meu humor menos do que não-lugubremente contemplativo. Daí a conversa ficou ainda mais interessante.
      Sentia-me numa espécie de berlinda; eu no meio, e o casal em cada um dos meus lados, tentando me expôr maneiras de vida. Achei engraçado como o rapaz falava de filosofia e questões relacionadas a mente, a aceitação da dor, e nesse ponto Realmente o achei interessante, mas muito ironicamente, heheheheheeh, acho que ele não estava se dando conta do que estávamos falando sobre, ou que sequer os pontos que ele expunha eram coisas que eu já havia debatido pelo menos mil vezes com uma certa pessoa que gosta de vazios, comigo mesmo, e às vezes com alguma outra pessoa.
      Normalmente, teria sido Extremamente enfadonho ver alguém me subestimando dessa forma, mas como eu estava sendo o centro das atenções, e vendo os dois pagarem um Ultra-mico, em não notarem o que eu estava falando de Jeito Nenhum, hehehehe, eu deixei a situação progredir... Acabou numa conversa sobre Sartre e liberdade. Acho que foi aí, que ou o rapaz desisitiu (triste pensar nisso, mas ele estava conduzindo mais a conversa; a menina mais ouvia do que falava, talvez uma tendência desses namoros cheios de dominação, proteção e ego; ou não)... Mas um pouco sobre a conversa em si.
      Toda a conversa rodava em torno de exemplos, de situações propostas, que os dois tomavam como literais. Como propostas sobre como o amor pode ser tão voluntário que chega a ser involuntário, o que eles tomavam como uma tendência minha a não aceitar alguma paixão que eu tivesse; logo depois, tentar explicar que eu não me conformo com a existência da solidão e como eu não tenho opção sobre isso, coisas que eles viam como eu reclamando que estava sozinho. ¬_¬¡. Nesse aspecto, por mais gentis que eles fossem, realmente, santa tapadice². Acho que nesse aspecto, a questão de um querer ajudar não colaborou muito com o que eles poderiam ou não entender de mim. De qualquer maneira, a conversa saiu desses tópicos, até enfim entrar em Sartre, que foi quando eu acho que eu consegui me fazer entender.
      Depois de uma pequena exemplificação do que Sartre pensa sobre liberdade, e uma idéia sobre saúde mental bem complexa, num mundo onde só existe bem estar pro paradigma vigente da ciência, acho que consegui demonstrar meu ponto: O rapaz falava sobre liberdade... Que tudo era de certa forma bonitinho, e em especial, voluntário. Bom, eu falei que resumidamente, a liberdade, matematicamente falando, existe em função do poder, e que agora, um ponto em especial, é notar que o ser humano é necessariamente Condenado a essa liberdade, e isso é uma condição imutável do mesmo. Foi aí que eu acho que o mané entendeu meu ponto; eu não gosto das condições impostas sobre mim mesmo, porque é necessariamente humilhante saber que há coisas que são imutáveis e sobre as quais eu não posso nem sequer reclamar. Depois disso, não sei se ele desistiu de tentar falar sobre isso, se estava com pressa, ou se ficou irritado por finalmente entender o que eu estava falando com eles havia 30 minutos, e eles só falando abobrinha a respeito, hehehehhe. Foram embora logo após, de mais algumas falas do gênero "viva com seu problema, você vai ficar Bem". *vomita*
      Acho que algumas coisas não têm solução de forma alguma, e bom... Não necessariamente toda dor tem alguma resposta, anestésico, ou sequer a necessidade de necessariamente ser sanada; algumas coisa existem e são válidas por si só. Acho que nesse ponto, posso seguramente adicionar que aqueles dois tinha Seríssimos problemas com a falácia conhecida como "wishful thinking"; eles pensavam demais em bem-estar e BEM MENOS do que deviam em ciência, em verdade, em sondar o mundo à suas voltas. Nisso, eu posso falar com certeza ferrenha:
      Minha conclusão é que entre se sentir bem e viver uma vida bonitinha, eu prefiro me ocupar daqueles pequenos paradoxos cotidianos, os que não têm solução firme nem sequer podem ser resolvidos, e que necessariamente Hão de trazer angústia... Mas que por outro, também são verdade, e, ao serem ignorados, acabam por esconder uma parte bem rica da realidade, e que por mais que não sejam agradáveis de serem contemplados, me soam menos medíocres do que o bem-estar pelo bem-estar em si; Rapaz, esse negócio de viver preso a uma sensação de bem-estar não tá com nada, o interessante mesmo é o transitar.
      Não que ironicamente eu não goste de tristeza, mas é o que penso a respeito. A situação inegavelmente foi destoantemente agradável, e nisso, hehehehehe, eu fiquei até um pouco feliz, talvez pelo conjunto todo, talvez por pensar que seria uma memória agradável, uma nuância que faria daquele dia diferente de todos os outros.
      E por sinal, aquele dia Foi diferente de todos os outros em vários aspectos positivos, que me agradaram e felicitaram. Conversas noturnas de valor, dias de pensamento, jogos que me faria pensar, eu entendendo um pouco da humanidade... Ah, ontem foi um dia imenso, com várias horas em que realmente o tempo não apenas passava, mas era devidamente empregado. Mas isso já são outras história prum post quase de mais de cem linhas. ;)
      Abaixo, o texto.
Ps.: Depois eu reviso e publico isso aí embaixo direito; tá bem cru.
Pps.: Alguém me deve alguns cortes. Eu vou cobrar, sem a mínima cerimônia, hehehehe.

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      Conversas aleatórias; liberdades e desistências. Não dá pra mudar o mundo interior de alguém, senão por meio da própria pessoa, e é nesse aspecto que mesmo o mais altivo tirano reconhece que não há de obter para si o poder de dobrar vontades, senão por mérito das fraquezas das mesmas. E assim mesmo que o mundo se apresenta aos seres cujam peitos se inflam em enaltecimento a si mesmos, o corpo muito mais um espelho e um desenho, um retrato, do que necessariamente o si.
      Eu às vezes gosto de ver o mundo pelo meu lado, e sempre acabo reconhecendo o tamanho do meu mundo, o fim da minha pele, uma barreira intransponível com a qual eu invariavelmente me choco, como que no encontro diário marcado de um ser que constantemente se opugna aos limites da própria demiurgia. E como o planeta não se torna aquilo que eu desejaria, vejo a realidade como uma experiência alquímica de fósforos e chumbo, como que em cores selvagens e dispersas de uma reação hermética alheia ao meu controle. Oras, a questão é sempre o tratar com humanos, os seres livres que humilharam o sentido com seu vazio, essas criaturas indomáveis que até mesmo na submissão demonstram soberania, é por si só também humilhante, pois é aí que se nota a falta de opção patente no associar o próprio regozijo com esses bastardos da estase, que mais demonstram sua linhagem suja e maculada do parentesco vil com a caótica mudança, pois em suas eternas inquietas vontades e caprichos, fica deprimentemente óbvio se se fica sujeito à vontade do outro, ao capricho alheio, à forma triste e vulnerável como a felicidade dos que almejam e planejam no campo do humano é sempre uma cooperação e nunca e jamais um mérito próprio, eternamente uma situação de submissão e nunca uma per-si conquista. Ah, aos que planejam e dispõe sua felicidade e realização no campo das vidas humanas, lembraivo-nos de vossa intrínseca sujeição nesse mundo; pode ser um mundo bem triste a aqueles que mais sabem realizar sozinhos do que em grupo, ou àqueles que jamais aprenderam a viver senão sós. E em tal mundo, mesmo na altivez, há eterna incompletude, inonipotência, e solidão. Aprendei-vos com vossa solitária e inquestionável divindade... divindade... E, ao andar entre deuses... A subsequente e inegável pequenez.

Brasília, UnB, 04/04/2007, 06:05Pm

- S.

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