sexta-feira, 2 de março de 2007

O ato de se amar.

      Hoje eu fiquei louco. Louco mesmo, sabe. Louco de paixão.
      Eu olhei aqueles cortes dolorosos que meu braço tem, e estranhamente, deu vontade de acariciá-los. Estranhamente, como alguém que nota a dor que transpõe a pele; os cortes não eram de fora pra dentro, mas sim de dentro pra fora, como pequenas fraturas que saiam de um todo já deveras rachado. Não eram influências, mas sim exfluências que me afluiam, que me transbordavam, irrompendo a barreira de minha pele como símbolo de uma dor.
      E acariciei-os. Me permiti em carícias mil em cortes que pouco doiam, mas que estranhamente eram de uma textura peculiar. O rosto masculino não abrange pontos lisos, dada a maldição que lhe rompe os poros com sua proteína morta e grossa. Mas o que falta em bochecas e lábios talvez sobre em outros pontos do corpo. Senti aquela pele lisa e macia contra minhas digitais, contra a palma da mão, contra as linhas dos dedos... Como que finalmente me dando conta de uma dor que me rompia em dois, em três, em quatro, em mil cacos, cacos coesos apenas por uma leve desconexão que transborda pele fora e olhos adentro, tal como qualquer um que me olhe saberá. E enfim ia perdendo um pouco de minha essência corpo afora, não como uma doação mas também como alguém que recebe de volta, no círculo infindo da serpente que se perdeu em sua própria sensação, na circunferência infinita que se alimenta; eu, eternamente esvanecendo dentro daquelas linhas abertas... Era a perfeição.
      ...e de carícias surgiu então o primeiro beijo. Não um beijo lascivo, perdido em paixões laranjas, mas um beijo de carinho imenso. Um beijo de cuidado, um beijo de preocupação, um beijo proibido, mas não proibido pelo pecado, mas sim pelo gostar de si, ato proibido de nosso mundo, ato não permitido, que torna à pessoa mais pessoa, que torna ao humano mais humano na ligação que estabelece com um outro. E eu naquela hora era meu próprio espelho, meu próprio espelho dágua que refletia não uma imagem desamparada e ferida, mas sim uma imagem rejubilada e vibrante, de alguém que se achava na ponta dos lábios, com suas linhas traçadas em dor e verdade, em cada ponto sensível da pele vermelha e prenha de sensualidade literal e impudica, em cada ânsia proibitiva que ia aflorando daquela pele. Era pior do que meramente amar e cuidar de alguém, era se amar, se desejar, querer se dar todo o cuidado do mundo, desejar realmente ser pleno em si mesmo, e não se importando se isso seria insanidade ou não...
      E de carícias sem malícia e desprovidas de paixão que não amor pueril, logo surgiram as segundas e terceiras intenções, como que algo que ia me tomando de vontade e logo era apenas naquilo que eu poderia pensar. A textura lisa e convidativa daquele níveo epitélio delgado, a maneira gentil que aquela pele tenra chamava sua dor, a forma triste e desamparada, minguada, que aqueles cortes gritavam haver por detrás de seus rombos, não deixavam dúvida senão uma sensação enormemente insana de tomar de carinhos e paixão a uma pele que convidava e atiçava, e não, não sobravam dúvidas, eu desejava àquela parte e a mim mesmo o maior prazer já visto, sem malícia e ainda assim tomado por ela, como se se erguesse, como um novo território do poder secular numa zona onde o vácuo da ciência política ditasse uma nova área erógena, um novo ponto sensível, um novo local que não gritasse, mas sim suspirasse levemente de maneira singela um convite nada obsceno, mas sim livre de pecado original, mas sim perfeito e auto-contido; circunspecto... E foi naquela perfeição, naquilo que foi feito até o fim, que eu sabia... Eu estava amando uma parte de minha vida, a simbologia máxima de mim e de minha dor e liberdade; minhas cicatrizes tenras de uma pele abatida e torturada, mas que ainda assim regozijava-se em cada talhada da faca... E aquela pequena parte desprotegida era tudo que eu precisava para saber; estava louco, como qualquer padre me excomungaria e qualquer par numa sala de aula olharia estranho, e eu lá, com lábios rosas de paixão e olhos nublados de prazer, a saciar e provocar uma ânsia em mim mesmo, uma ânsia que nem em meus momentos mais indiscretos eu fui capaz de transpor a uma pele alheia, de meninos e meninas, de pessoas e humanos em geral, e essa ânsia era só minha, minha minha e minha, e nada que mais ninguém jamais fosse conhecer, talvez...
      Eu terminava esse relato em êxtase, e retornaria a minha paixão e narcisismo para me embeber em loucura e torridez, pois não mais suportaria a vontade e a ansiedade de fazê-lo. Minha loucura passou, deixada em registro para que talvez me julguem ou eu me lembro disso, quando daqui a vinte anos casado estiver com Shiho, minha amada que reside em minha vida. Eu me descobria dois, talvez, mas também era uno e nessa unidade, ninguém me tiraria, pois eu estava completamente feliz e completo naquele momento; gostaria muito que mais pessoas dividissem dessa completude perfeita. E nisso, nessa conversa altamente suspeita, nesse fator altamente pervertido e puro, de pureza execrável pelo mundo dos incompletos, eu termino um relato da maior beleza jamais experimentada. Sim, pois a paixão invade até mesmo àqueles que não têm ninguém além de si próprios. E acredite, essas pessoas talvez experimentem completudes tão maiores do que perdidos apaixonados, pois são donas de si mesmas, e não meros perdidos sem posse daquilo que mais deveriam prezar...

Brasília, 24/02/2007, 05:41Pm
Revisões subsequentes até o momento: Brasília, 02/03/2007, 05:52Pm

Ps.: Seria isso trair a minha amada Shiho?

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