
É, eu sei o que disse sobre tentar melhorar, sobre tentar ficar longe do álcool nas manhãs não-produtivas desse semestre desastroso... Acontece que não tenho mais o que fazer mesmo. Minha natureza... ou whatever. Eu devo tá entrando numa dessa fases anti-sociais em que me isolo, trancado no meu quarto, falando só quando absolutamente necessário.
Anyways... eu tento aproveitar meu tempo perdido - quando mato todas essas aulas durante a semana - lendo. Mas a diversão maior, eu confesso, tá em observar o mundo ao meu redor enquanto saboreio o néctar dos deuses holandeses (se é que eles tinham alguns - deuses digo, não néctares). Normalmente eu sento em frente a um salão de beleza chamado Cris Arts (é, chique assim mesmo) e Festas - obviamente, uma puta placa gigantesca que pertencia ao estabelecimento que faliu antes do início dessa empreitada narcisista.
Apesar do propósito do local, não há nada muito belo a se observar além de gordas estranhas tentando dar um pouco de esperança a outras gordas não menos decadentes. Na verdade, até tem uma atendente bonitinha, mas dificilmente com atributos quaisquer suficientes pra me fazer sentar quase todo dia no mesmo local pra admirar seus dotes.
Não, o que me atrai no local é o movimento. As pessoas simples. Os transeuntes incautos. O dia-a-dia em sua forma mais despreocupada. É aquela velhinha na cadeira de rodas, empurrada por outro velhinho (provavelmente o marido), que enquanto a move, segura também sua mão, com uma intensidade e convicção que me faz pensar que talvez o tempo não seja um inimigo assim tão amedrontador como costumo imaginá-lo. É o entregador de água, já nitidamente cansado do seu trabalho, que vai rolando seus fardos de 20 litros, chutando-os pelo chão, até o local de entrega que não poderia ser outro além do mesmo salão de beleza. Salão esse que presencia ainda a investida de outro simpático idoso. Mas esse com seus bons 80 anos, bengala em riste e andar "lesmico", de quem já viveu o bastante pra perder esse receio de passar vergonha e cantar todas as jovens "beldades" do local. Ele sai com os mesmos passos lentos com os quais chegou, mas um sorriso jovial, que parece lembrar a época em que aqueles floreios lhe rendiam risos furtivos e envergonhados de aprovação de suas musas.
Acho que isso é a vida. O movimento eterno, caótico, para todos os lados, sem medir consquências. A natureza e seus microcosmos como o salão da "esquina" da 209, que acaba resumindo boa parte da aventura da existência humana. Nesas horas me parece difícil entender a tristeza.
terça-feira, 5 de junho de 2007
movimento eterno
Postado por
vaziø
às
11:11
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Um comentário:
É... São os pequenos momentos, pequenos movimentos, que juntando tudo, dá nisso que chamamos de vida, e que não pára... Gostei muito do que você escreveu, me fez lembrar as noites que passava na varanda do meu antigo prédio, observando a rua logo abaixo. Já conseguia predizer até o que aconteceria, um senhor passava sempre perto da meia-noite de bicicleta, o caminhão de lixo pouco depois, uma senhora bem vestida e apressada entrando no prédio da frente e, o que mais me chamava atenção, o semáforo. É bobo o fato de ser isso o que mais me chamava atenção, mas ele não parava. Podia não vir ninguém e ele continua mudando de cor, sinalizando, regrando o nosso movimento... E era assim toda noite.
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